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Ricardo Reis

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Ricardo Reis

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Ana

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Ana

Em 2035, Lisboa será alimentada por eletricidade 100% renovável, os seus edifícios serão energeticamente eficientes, os transportes públicos serão eletrificados e as ciclovias expandidas, e será um modelo de sustentabilidade na Europa e no mundo.

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Sofia Vargas Gusmão

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Sofia Vargas Gusmão

Prédio tomado - O dia iniciou quente e ameaçava-se abrasador. Bastante diferente dos dias anteriores. Seria, talvez, uma noite em que até não se importariam de ficar lá fora. Tinham-se já habituado, porém, à ocupação diária; fazia parte da rotina, agora, termo que quase tinham esquecido nos anos que haviam antecedido aquelas três semanas. Três semanas. Quem diria que em tão pouco tempo conseguiriam uma coisa tão composta? Afinal restavam forças naqueles corpos magros. E a união tinha-as reforçado. Era um objetivo comum e em comunidade iam conseguindo. A votação na Câmara de Lisboa ainda tardaria duas semanas, mas já tinham sido alvo de represálias. Surpreendentemente, também viram a sua causa ser abraçada por quem nada tinha com o assunto. Esses apoios tinham sido importantes. Afinal havia alguma esperança na humanidade. E porque não? Era uma pena, de facto, que o edifício continuasse a deteriorar-se daquela forma. Deteriorava-se o edifício e definhavam todos eles, na rua, sobre caixas abertas e mantas rotas. O tempo parecia querer melhorar, mas até ali tinha sido duro. Frio cortante, frieiras nas mãos, queimaduras nos narizes. Dormir para esquecer. O dia inteiro, se necessário. Então viera a ideia. Não partira de nenhum deles, propriamente; antes fora como que um acordar coletivo, pelo chocalhar das latas a caírem no chão. O rapaz não teria mais de treze anos e foi preciso olhar em volta para perceber os vultos um pouco mais afastados que lhe sussuravam instruções. Um teste, talvez. Prova de bravura e capacidade de arriscar para poder integrar o grupo. Ele lá trepou o muro, sorrateiro, e ninguém deu pelos seus movimentos. Foi só quando começou a afastar os tijolos soltos da janela entaipada que, por nervoso ou desleixo, deixou escorregar a sacola com as latas de spray. O som tornou-se ensurdecedor na alta madrugada e acordou-os de sobressalto. Hipnotizados, mirando o mesmo ponto por onde o pequeno vulto se esgueirava, deixando-se engolir pela escuridão, como que manipulados pelo mesmo conjunto de fios, cinco almas anónimas - mesmo entre si - ergueram em simultâneo a cabeça e abriram um olho de cada vez, numa coreografia silenciosa e inacessível ao transeunte ignaro. Aguardavam, atentos aos sons noturnos e conscientes uns dos outros, que o jovem terminasse a sua missão, o resultado apenas visível na manhã seguinte. Seguiam a evolução daquela história havia já algum tempo. Quem conta um conto, acrescenta um ponto e, aos poucos, as ilustrações uniam-se, falavam-se e começavam a narrar o enredo. A turma só abandonou o local ao início da alvorada, uma forma amorfa em contra-luz, progressivamente mais pequena. Começaram então, eles, a levantar-se, devagar, morosamente, que a vida é mais longa do que dizem e não há pressas para chegar ao destino. Com que então os tijolos estavam soltos. Com que então havia uma maneira de entrar. E ao tempo que eles ali se encontravam, cada um no seu posto, estabelecido com custo, por vezes, pela força. No entanto, agora caminhavam lado a lado, como se fossem eles a turma, não sentindo necessidade de competir. Todo um prédio à sua espera. Haveria, decerto, lugar para todos. Os trabalhos começaram quase em simultâneo, sem trocas de palavras. Essas vieram mais tarde. Um “obrigado”, um “de nada”, um “eu ajudo”. Três semanas. De trabalho, de limpeza, de ofertas. De insultos, de pedras arremessadas. Agora, o direito àquela ocupação iria a votação. Duas semanas passariam a correr.

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Jozhe

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Pedro Miguel O. Nolasco Ferreira

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Pedro Miguel O. Nolasco Ferreira

Tu precisas de mais espaços verdes, para poderes respirar melhor. Mais ciclovias, porque assim poderás circular sem poluir, mas tens de baixar as rendas das casas, porque assim ninguém te poderá habitar!

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1825 Research Studio For Architectural Visualization

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Carla Rodrigues Cardoso

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Carla Rodrigues Cardoso

Se dependesse da minha imaginação, no futuro Lisboa seria mais verde, com menos barulho, e com zonas habitacionais acessíveis que permitissem, a quem o desejasse, habitar na capital.

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Pedro Nóbrega

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Pedro Nóbrega

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Rosa Reis

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Shifting—Realities Collective

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Graça Penha Gonçalves

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Graça Penha Gonçalves

O Descobridor - Em 3018 o EX-H/ 4.000.0001/2968 da espécie dos humanos intrigou-se com o vermelho de uma papoila. Fazia-lhe lembrar os campos à roda da casa dos seus tetra-avós. Não que ele os tivesse experienciado (!), mas aquela imagem dava-lhe que fazer à reflexão. Perguntou à sua progenitora se conhecia o aroma e a textura da papoila, sabendo que apenas estava programada para interpretar os sentidos humanos e ligá-los a conceitos. Mais tarde a sua futilidade escusada seria castigada com horas suplementares de ligação digital e menos 1 ponto na escala dos sem-escuro. Arriscou, esperando e logrando a não resposta. Por breves instantes abandonou-se ao deleite não recomendado da sensação. É certo que podia ver as estrelas e o nascer-do-sol a que horas quisesse; ouvir o fulgor do mar e o rugido do leão sem sair do conforto da sua gruta tecnológica; saborear todas as variedades de vinho e queijos que ele tanto gostava (havia aquele com travo de pimenta…!); acompanhar, com verdadeiro alvoroço, o campeonato “Eurásia 2058” de corrida em obstáculos. O seu coração batia, sempre descompassado, à hora do “Treino Humano”. E isso, sabia bem. Sabia que significava felicidade. Porém, no módulo “Efeitos” aprendeu que o sol deixava a pele humana queimada, causava dor, como a dor que causou a toda a natureza fora da gruta, quando a dizimou; que a névoa de gases poluentes escondia as estrelas e a própria lua; que a fúria vingativa do mar devastara a Lisboa amada da sua saudade ancestral; que o rugido do leão simbolizava o poder exterminador e autofágico dos motores da violência; que o vinho e o queijo estavam na origem da alienação humana e das doenças cardiovasculares e, por isso, o seu consumo era limitado; que a corrida trazia cansaço não útil para a sociedade e, tudo visto, os 20 minutos diários sugeridos de ginástica na gruta, chegavam para assegurar a sua sanidade psico-motora. Tinha sido gerado no “Planeta Ideal” sob o signo da autossuficiência e do bem-estar, arduamente conquistado pelos seus antecessores. A consciência desse facto apenas lhe causou um frémito de angústia (?!) no momento em que acedeu ao “local interdito”. Sofregamente visitou o “sub-local história” e viu o horror da guerra permanente, da desolação e do sofrimento, sulcados no rosto de milhões de anónimos; viu as lágrimas espessas da tristeza no desamparo de muitas despedidas; viu o paradoxal movimento pendular das migrações e das expedições militares; viu o desconsolo dos idosos, a agonia dos enfermos e o silêncio dos subnutridos; viu o mundo restante: de pedra, pó e sangue. Mas também ouviu gritos de euforia e vitória; bandeiras e cartazes multicolores a vibrar em sinfonias indizíveis; as vozes dos sonhos, ditas e interpretadas nas sete artes e na constelação das ciências; a juvenil alegria do desafio, da contestação e da conquista, mil anos antes; o rogo da esperança na boca dos orantes; a gratidão, na laboriosa solidariedade, nos pequenos gestos de paz, nos abraços largos e nas gargalhadas contagiantes: puros, cristalinos, incontidos. Em posição fetal, escondeu-se de si num sorriso salgado de lágrimas sem tempo e sem espaço. O monitor artificialmente inteligente proporcionou-lhe a visão do nascimento biológico de um bebé. A imagem seguinte espelhava a mortalidade em milhares de cruzes brancas enterradas em muitos quilómetros de um campo verde ponteado de papoilas. Por longos instantes invadiu-se de consciência. Ocorreram-lhe as palavras Amor e Aventura e saiu lentamente da gruta. Podia cheirar o azul do céu sem filtro, e tocar o vento fresco vindo do além-Tejo. Com o coração arrítmico, verificou que não era o único.

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Luís Balula

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Luís Balula

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Rui Matoso

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Rui Matoso

Nós fazemos as cidades e as cidades fazem-nos a nós. As cidades foram idealizadas pela humanidade enquanto contextos, territórios ou espaços, propiciadores do florescimento individual e colectivo. Enquanto bem-comum, a cidade interage com a cultura e com a natura, gerando a vitalidade urbana.

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1825 Research Studio For Architectural Visualization

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Jozhe

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Leonor Cintra Gomes

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Leonor Cintra Gomes

Um multiuzinhos em cada bairro. Lisboa pode estar bem servida de equipamentos, mas cada um tem seu uso. Em cada bairro, de dimensão humana, deveria existir um pequeno equipamento, aberto 24 horas por dia, que tivesse serviços de apoio ao cidadão e permitisse reuniões, leituras, cinema, ginástica ...

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Rosa Reis

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Madalena Bobone E Leonor Bagulho

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José Luís Borges De Almeida

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José Luís Borges De Almeida

cidade dos sete mares - quem me dera aportar a ti mesmo longe de um porto, sentir-me tão próximo da lembrança das tuas ruas que entre nós dois apenas esse nós pudesse haver, poder ser parte de ti nos mapas dos teus mapas, como uma semente num fruto proibido por colher. ou balouçar qual navio perdido à deriva na calçada da memória das antigas naus a ti ancoradas, cidade de contornos infinitos esculpidos em lioz, sonhada a preto e branco pelos que sonho em mim, voando nas asas do desejo ou nos braços desse anjo que paira espraiado em ti qual suave delta. serás sempre uma linguagem ainda não falada, a promessa da palavra inaudita por escrever nas velhas muralhas que parecem limitar-te a voz mas que em silêncio são o grito da tua canção, pois qualquer maré sobe tanto em cada cais como na buenos aires de borges ou na dublin de joyce, porém menos nesta desassossegada lisboa dos pessoa, por ser mais náutica e livre que as águas que a lavam, por haver um mar em cada uma das suas sete colinas. e assim penso o teu passado num amanhã. sei que te procuras num espelho e jamais encontras as varinas do cesário nas travessas percorridas pelas tipóias do eça. nem te apercebes que os corvos agora pousados na barca do brasão logo voaram quando por engano te trouxeram o corpo de um santo. o tejo já te não lava a ossada que aquele terramoto descarnou e, sem vestígios visíveis, o tempo foi corroendo a recordação das faluas no relevo de um casario que ondula sob o céu e se molda ao remorso que sentes por não te poderes ser. olhas-te e sabes que nada mais és que uma vã promessa de praia fluvial, pecado não remido por uma culpada entrega a viajantes que em ti vêm desaguar, caravelas náufragas de nenhum descobrimento. o teu nome tem seis letras como a cidade que talvez gostasses de vir a ser, e sete feridas que não saram nas colinas que ninguém afinal contou.

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Eduardo Cordeiro

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Eduardo Cordeiro

Uma Lisboa boa no futuro é uma lisboa diferente do passado.

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João Barreta

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João Barreta

FUTUROS DE LISBOA em grandes obras … ou breve(s) conto(s)! OS LUSÍADAS (Camões) – Lisboa, um canto do Mundo, como possível ponto de partida de uma viagem singular pela magia da escrita da(s) descoberta(s) numa epopeia de descobrimentos. Por cantos do Mundo, em dez cantos de saber escrever todos os saberes. De um passado de histórias que para sempre deixou escrita a História do(s) …futuro(s) de uma Nação, liderada pela origem de um rumo - Lisboa, de tantos ou mais futuros como Lusíadas em seus, muitos mais de dez (en)cantos. Tantas conquistas, parcos meios, juízos e pré-juízos, ocupações sem preocupações. Enfim, a luta por tão nobre escrito, cujo futuro não prescrito, viria a ser contado e cantado aos quatro cantos, vinculando o fado de um tão grande Povo, de tão grandiosa Nação, de tão nobre Cidade, Lisboa de seu próprio nome, e bem mais de mil apelidos. A CAVERNA (Saramago) – Lisboa, o canto como tantos, iguais a si próprios. Um conto, seguramente bem mais do que isso. O(s) consumo(s), as sociedades de que a sociedade hoje se faz. Arremessados para um canto, entretanto recanto, qua passou de moda, já foi preferido, agora preterido, e/ou seu(s) contrário(s), por quanto, pode-se perguntar, quantificado no imediato do presente, pois qualificado será mais tarde ou talvez nunca. No presente, o de hoje, a alegoria, que se julgaria ultrapassada, é bem e já mais atual, jamais convirá esquecê-la, tão pouco menosprezá-la. A indiferença não faz sentido, não tem sentido e a afirmação distintiva é a direção da nossa Lisboa, veicula-se por via da(s) diferença(s) cuja representação de uma realidade nada abstrata, repleta de imagens, símbolos e metáforas, porque não, espelho de luz, espelho de água, que se dizem e afirmam únicos no Mundo. O LIVRO DO DESASSOSSEGO (Pessoa) – Lisboa, num canto de complexidades, portanto, inquietações de um ou de todos os cantos deste nosso Mundo, desta sociedade, em que temas correntes e recorrentes, em textos e seus contextos, parecem fugir a uma lógica instituída, por isso imposta, que pouca lógica parece (de)ter. Questionar tudo, importar e importar-se, conceito, pré-conceito, tantas vezes preconceito. A escrita só fala a quem lê, a música só toca quem a ouve, mas Lisboa fala a quem a vê, a quem a ouve, a quem a cheira, a quem a degusta, a quem dela disfrute e frutifique. Há quem a ame, há quem a cante, há quem a escreva, há quem a represente, aquém, além, por cá, por lá, por todos os cantos do Mundo, Lisboa causa … o(s) desassossego(s) de Pessoa, nas pessoas. Um desassossego assim nada traz de nefasto, antes une vontades, aguça engenhos, destrói derrotismos, enaltece quem o merece por fazer por tal merecer. OS LUSÍADAS NO DESSASSOSSEGO DA CAVERNA (?) – Lisboa, crendo num ideal de futuro, crendo nas ideias de todos os tempos, querendo o(s) saber(es), prosseguindo-os. Embalado por tão rico(s) e virtuoso(s) passado(s), facilmente parece tropeçar-se neste presente cuja(s) riqueza(s) por vezes parecem mais valorizadas por terceiros, os outros, do que, por supostos primeiros (nós, os … lusíadas sempre em desassossego(s) neste nosso canto, a nossa caverna). Como o outro, também este não se assumirá como livro, não terá uma narrativa, clássica, crónica. Será um … conto de encontro de contos, talvez de reencontros. Provavelmente será um conto que retrata (contra)tradições, talvez os desassossegos de um Povo que (sobre)vive, parte e regressa, descobre e é descoberto, pelos vícios e virtudes da vivência nesta caverna, cujas singularidades permitirão fazer respeitar as suas pluralidades. (…). Não há um futuro para Lisboa. Há Lisboa do Futuro. Só assim se construirá a grande obra … dos Futuros de Lisboa!

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José David Meneses Cunha

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José David Meneses Cunha

O avô viu o futuro na neta de quatro anos sentada ao seu colo,cujos dedos premiam as teclas do computador.Lembrou-se que só tinha feito o mesmo com trinta e dois anos.

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Jozhe

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Jorge Farelo Pinto

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Jorge Farelo Pinto

Pode um inspirado e imaginativo Desenho Urbano configurar um tecido de lugares e sítios, que institua alternativa a decisões pontuais desprovidas de arrojo, de modo a que bocadinhos formem um todo grandioso e que não constituam meras mega operações urbanísticas simplesmente integradas e funcionais?

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Rosa Reis

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Cheila Almeida

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Cheila Almeida

O futuro deverá preservar ingenuidade de sermos constantemente surpreendidos pela nossa própria cidade. Caminhar sem destino, encontrar sítios novos, cores nas paredes, cheiros e sons, relevos que nos oferecem paisagens, e um rio à espera da maresia.

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Pedro Miguel O. Nolasco Ferreira

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Pedro Miguel O. Nolasco Ferreira

Lisboa já não és só nossa, és do Mundo. E o Mundo clamará ainda mais por ti, oh Lisboa!

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Luís Filipe Silva

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Luís Filipe Silva

Amália, gigante e intermitente, desenhada no céu, entra em força pela janela do quarto de Dulce, despertando-a. Estremunhada, esta ordena aos vidros que escureçam, para suavizar o brilho daquela imagem emitida pela poeira inteligente hoje lançada sobre o bairro. A fadista canta a plenos pulmões numa língua invulgar: ultimam-se os preparativos do Chuseok, que este ano também se festeja na Europa. A transmissão em directo ocorrerá dentro de poucas horas, e pretende juntar centenas de bairros de vários países, em que cada qual se propõe misturar o regional com o estrangeiro, honrando assim o acordo económico recém-celebrado com os novos amigos asiáticos. O primeiro pensamento de Dulce vai para os resultados do leilão internacional de emprego, mas nem aí tem boas notícias: um grupo sul-americano tomou de assalto as ofertas mais procuradas com um dumping de salários. É a segunda vez nesta semana. Novamente desempregada até ao meio-dia, hora do próximo leilão, decide levantar-se. Aguarda a chegada do filho de quatro anos, despachado ontem pelo segundo marido em contentor privado e selado. Em breve aterrará em Beja, e o contentor será colocado no camião dispensador que o trará a Lisboa. Até naquele aspecto a crise mundial faz mossa, espalhando a família pelo mundo – um dos maridos na Indonésia, o outro em Amsterdão. Dulce sai para a varanda. Ao fundo, brilham os condóminos dos ricos da zona ribeirinha, local exclusivo e muralhado em que poucos entram – experimenta-se a nova forma ecológica de construir, usando betão orgânico repleto de tecido vegetal: prédios que se confundem com arvoredo, cujas amplas ramagens dão sombra a espaços de lazer, entrelaçando-se com ribeiros que formam piscinas naturais. Se ali não residir a felicidade, é porque não existe. Por baixo da rapariga, na apertada rua do bairro, magotes de turistas enfileiram-se para darem passagem uns aos outros, enquanto procuram não perder de vista os drones que lhes servem de guias. Máscaras electrónicas permanentemente ligadas à internet escondem-lhes as nacionalidades, como se tornou hábito, embora Dulce duvide que entre eles se encontre algum ocidental. Agitam bastões eléctricos para repelir a insistência dos anúncios-varejeiras que os massacram com sugestões de restaurantes, ofertas de pílulas de sonhar, doces da região, computadores auriculares, guarda-chuvas monolaminares, ramos de flores sintéticas; fazem vista grossa aos empregados das tascas da rua, que também os incitam com cartazes escritos em mandarim e urdu. Sem emprego, terá de abandonar este pouso privilegiado num dos bairros mais antigos da capital e sair da cidade, ir para as periferias, encontrar uma zona menos degradada que não esteja nem no extremo da anarquia com conflitos entre milícias e exército, como Alverca, nem no extremo oposto dos enclaves religiosos e das suas insuportáveis normas de comportamento, como Montelavar. No limite, tem a opção geograficamente contrária – mudar a família para o Enclave Autónomo da Margem Sul. Dizem que prospera, embora tenha regras muito restritas para conceder vistos de trabalho. Podem sempre aproveitar a nacionalidade estrangeira do segundo marido, que nasceu em Setúbal. Mas seria uma mudança demasiado brusca; por muitos defeitos que lhe encontre, Dulce gosta do bairro, do país e, numa extensão maior, das oportunidades ainda concedidas pela Utopia Europa. A fadista estremece, translúcida, deixando ver as nuvens no céu. A boca aberta, o peito erguido, os braços esticados na pujança do acorde final da cantiga. Depois desaparece, substituída pelo logotipo da emissão. Haverá festança, logo à noite, revivalismo de bairro, animadores vestidos com trajes populares, água-pé, manjericos e chouriço assado – de soja, não aquele feito de carne de que Dulce ainda se recorda de comer quando era pequena. Talvez nocivo para a saúde, mas inesquecível.

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José David Meneses Cunha

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José David Meneses Cunha

Este mundo não tem futuro.Está tudo cada vez pior.Não há respeito,não há valores. Dizia o vizinho para a vizinha.E cada um carpia a sua descrença, repetindo-se,ou dizendo um pior do que dizia o outro.Maus políticos,maus gestores,maus funcionários,maus estudantes.Ninguém lê,trabalha ou estuda.Já não há gente honesta.Já viu o disparate que fizeram aqui na rua?Estes tipos não percebem nada disto! O Futuro,que por ali passava nessa altura,riu-se e continuou o seu caminho.Havia tanto que fazer! Na Cidade,favorecia-se a habitação e emprego para os jovens.Recuperavam-se casas e os antigos moradores viviam agora em melhores condições.Os jovens,participavam cada vez mais. Os carros eram retirados do centro,implantavam-se caminhos para peões e ciclovias.Alargava-se o domínio dos transportes colectivos.Zonas verdes cresciam por todo o lado. Os museus agora eram organismos cheios de vida.Exposições sempre a acontecer;debates,saídas para as ruas.Os vestígios do passado eram preservados,com identificação dos locais e acesso a turistas e cidadãos. O Futuro seguiu,um Poeta passou ,olhou para o futuro,sonhou,sorriu.E nunca mais um poema pessimista da sua escrita saiu.

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Natacha Monteiro Pinho

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Natacha Monteiro Pinho

Lisboa amanhece sobre o rio. Podemos caminhar do Parque das Nações até Algés numa comunhão de verde da vegetação e azul da água, de branco da calçada e castanho das madeiras. Quiosques tradicionais dão apoio a quem caminha ou pedala. Dos bairros, as pessoas descem para viver e amar a zona ribeirinha

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Jozhe

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Mário Rui Guimarães

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Mário Rui Guimarães

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Carla Almeida

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Carla Almeida

Se pudesse vinha pelo ar, lá por de trás do Marquês, até ao Tejo. Vinha a planar, devagar... No rio fazia uma pirueta e punha-me a seguir, cheiros, sons, movimentos, Lisboa. Quando me cansasse, sentava-me na janela do torreão a esbater-me no rio.

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Ana Roxo

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Ana Roxo

Cidade tímida, esta Lisboa espreita entre ruelas de colinas sobrepostas o mar de água doce que transporta entre margens de quotidianos tristes, gente viva de desejo que no brilho desta luz vê sinal de eleição e, no tapete de memórias sem tempo de amanhã, espera dócil, manta quente de sol no branco

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Marta Silva

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Marta Silva

Este projecto daqui a umas décadas, poderemos neste campo de participação fazer o upload de cheiros, sabores e até de nós próprios!

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Jozhe

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Ana Mafalda N. Mendes Pereira

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Ana Mafalda N. Mendes Pereira

E se na Lisboa do Futuro fosse construída uma ponte pedonal transparente desde o Cais das Colunas até Almada? Seria um caminho menos duro, um presente sobre essa via Tejeana tão amada !

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